quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Cap.I O tempo parado e o chão de madeira

"Don't know what it means" In Bloom- Nirvana 

Chove. Cidade litorânea sempre foi assim. Muito calor e como conseqüência muita chuva e quando ela vinha ou era sempre muito pesada ou durava dias e dias. 

E em Santos isso não era diferente. Já fazia quatro dias que o tempo havia parado, a casa mostrava sinais de infiltrações e no chão de madeira já não havia lugar para tantas baldes que continham as gotas dos furos do teto, mas mesmo assim o lugar preferido da casa estava disponível, entre os sofás em um canto perto da estante, a TV no mudo tinha um clima nostálgico de tempos não vividos. Até poderia ser um deja vu, se não fosse o som que rolava:“In Bloom”, do Nirvana, batia em todas as paredes da casa, tirava o extrato da solidão do ambiente e vibrava nas mobílias e nos objetos. Essa era a coisa mais heróica de morar sozinho. Podia revoltar-se quando quisesse e mudar tudo, ligar tudo, xingar a tudo, beber e usar qualquer coisa que ninguém ligaria. Vizinhos, claro, havia e como em todo o bairro eram curiosos e bem ligados na vida alheia, mas ele não ligava muito, falava com dois ou três, mas esses assuntos não passavam de comprimentos, coisas corriqueiras para fingir importância ou mesmo pedir algo para alguém quando as coisas realmente ficassem pretas.

 Roger não usava drogas, há sim claro bebia, mas isso muitas vezes é considerado pequeno para quem usa coisas que a lei não permite de fato. Ele tinha muita curiosidade, fugir da realidade era algo que o deixava excitado, porém sua vulnerabilidade ante os seus próprios prazeres poderia por destruí-lo. 

Seguia o pensamento socrático “conhece a ti mesmo”. Isso o parava, o algemava para prosseguir com algumas coisas não aceitas pela sociedade, mas sabia que uma hora não aguentaria essas hipocrisias e aí então certamente estaria perdido.

Vinte e poucos anos, estudante de filosofia, sempre de jeans gastos e camisas baratas. Mal as trocava. No frio usava jaquetas e moletons, o que emprestava para si um ar mais maduro. Era moreno e magrelo e  sempre estava abaixo do peso, comia mal. Tinha a  barba sempre por fazer e os seus óculos eram tortos de tanto dormir  sobre eles e não perceber. Tinha uma tatuagem por cima do tríceps, uma coroa sobre uma faixa, dentro da faixa solidão. Era admirado por ela. Era sua maior linha de raciocínio para entender os outros indivíduos, para ele, tudo o que era feito pelas pessoas, tudo o que elas usavam, tudo o que elas faziam, pensavam, planejavam, viviam, era por medo de ficar só, por medo de sempre e sempre nunca ser compreendido.

Solidão era um prato cheio para ele, ficava horas e horas escrevendo sobre. Se encontrava alguém interessado pelo assunto, essa pessoa certamente passaria uma eternidade ouvindo sobre como as pessoas sempre se movimentam pelas sombras e medo de ficarem sozinhas. A solidão era sua melhor amante. Mas era uma puta cara, cobrava caro por saber que sempre e sempre estaria só.

Seguindo com suas linhas de raciocínio, pensava tanto do porque gostava daquele lugar. O chão. O sofá de couro preto parecia ser tão mais confortável e parecia ter sido tão caro. Ganhara aquele sofá de um amigo, um presente por ir morar com a namorada, quando a tinha. Apesar de ser um tanto egocêntrico e concentrado, tinha facilidade de fazer amigos. Talvez por ouvi-los e não julgá-los, simplesmente os ouvia. Muitas vezes as pessoas só precisam disso para confiar em você. Quanto a ela, bem, foi só impulso, mas isso o fez crescer, bastava.

A conclusão do seu pensamento sobre o chão era que o chão tornava as pessoas iguais, não importava o quanto de dinheiro você possuía ou seus bens materiais,  no chão  todo mundo igual, todos tem o mesmo nível, tudo dói porque é desconfortável, é duro. Uma teoria marxista de desigualdade social e luta de classes, que ele acabava fazendo referencia aos seus próprios pensamentos.

Ela, era linda, como sempre fora impulsionado pela beleza e não pelo o que realmente as pessoas são por dentro da casca que elas vendem. Olhos claros, pele clara e cabelos loiros longos e bem cortados. Tinha nome grego, nome de deusa grega, perdera-se naqueles braços e achava que era amor. Não era. Era sexo. Só estava sendo movimentado pela solidão, perdera-se por entre seus seios e os profundos olhares de mulher, era garoto, não sabia dos enigmas femininos, não que soubesse agora, mas aprendera a ser mais sensato, mais frio.

Agora morava só e seus diversos sexos casuais viviam acontecendo, garotas fantásticas de corpo, gordinhas, magras, loiras, morenas, altas, baixas, comia a todas e todas eram vazias e sem nada de realmente fascinante a não ser a casca, a não ser o sexo. No começo era tudo o que precisava para esquecê-la, mas tudo nessa vida enjoa se não for reciclado, se não tiver o medo do novo. Roger era um filosofo oras! Tinha que se deparar com perguntas e mais do que tudo com o comodismo das coisas. Aquilo já durava dois anos e já estava mais do que cômodo. Já estava mais do que na hora de mudar.

Calçou seus tênis pretos e saiu na chuva mesmo. Não sabia que horas eram, mas isso não importava. Vivia casos de amor e ódio com os relógios. Apesar  de não ser religioso acreditava que deus era o tempo, pois tudo é construído dele. Ao perceber onde seus pés o levavam, deu-se conta do velho miniramp. Um dos seus lugares de sua adolescência. 

Os antigos grafites haviam sido apagados, o boteco de sempre ainda estava de pé e as pessoas de sempre ainda estavam lá. As poucas coisas que mudaram foram suas expressões, marcas a vida sempre deixa a mostra e elas estavam visíveis em todos os olhares e toques do velho violão que um deles sempre trazia, agora sem a cor e sem o timbre de antes. A cena parecia uma foto, as paredes mal pintadas do lugar, cadeiras de plástico, cheiro de cerveja e maconha no ar, meia dúzia de mulheres rodadas e duas mesas de sinuca, que era a única coisa que prestava naquele momento. Sentou-se pediu uma cerveja e uma das garotas que estavam por lá já se ofereceu para fazer companhia. 

Já estiveram com ela tantas e tantas vezes que já não via graça em mais nada de qualquer coisa que ela dissesse, é como uma criança que brinca com o mesmo brinquedo sempre, uma hora abandona. Uns puxam carreiras de cocaína e se divertem jogando cartas em um canto qualquer do lugar, a policia já havia sido comprada há meses, era um esquema que sempre funcionava pagar para não ser incomodado e todos ficam felizes. Roger não sabia ao certo que diabo estava fazendo ali, só havia sentido que precisava voltar ou mesmo paralisar um pouco o tempo. Estudante de filosofia sempre se acha bem mais velho do que as outras pessoas, lembrou-se que uma vez ao sair com uma garota pouco mais nova que ele, sentiu-se um idoso ao ouvir que ele tinha 60 anos. Após o episódio resolveu sair com as mulheres de 30. Essas eram sempre as melhores. Tanto nos assuntos quanto na cama, sabiam fazer de tudo, sabiam fazer um cara como ele feliz. Ao terminar sua bebida paga a conta e sai, nem dá ibope para a garota de cabelo pintado que tentou ganhar a noite. 

A chuva continua a mesma e no asfalto varias poças que os carros fazem questão de passar por cima para sacanear qualquer pessoa distraída. As luzes dos postes são laranjas o céu cercado de nuvens cinzas e até baixas, ao que parece vai chover e muito ainda. Derrepente seus pensamentos são interrompidos, ela vem andando depressa e seus saltos úmidos podem ser ouvidos a distancia. Cabelos pretos, olhos castanhos. Olha além, com se tivesse um objetivo traçado para a noite. Nem o nota. Casaco de lã preto, mesmo assim da pra ver o decote. Seios brancos e fartos, jeans apertado e afivelado por um sinto trançado. Passa e só fica o cheiro, quem será ela?

O chão de madeira absorve o peso dos ombros, relaxa e se joga no canto de sempre, na cabeça já a observa nua.

Em seu sono desajeitado no chão de madeira ,entre os sofás de couro, Roger mentalmente vislumbra a imagem magnífica da mulher da noite passada. Seu descanso é interrompido pelo toque do celular que o retira do seu prazeroso sonho. No visor do aparelho o número da policia. Sem saber o porquê da ligação, ainda eram 6h15 da manhã, ele atende e descobre o destino cruel de quem se entrega demais no desejo de fugir da realidade e de sua solidão. Seu grande amigo havia sofrido uma terrível overdose.



In Bloom by Nirvana on Grooveshark

Um comentário:

fuyangli disse...

Era admirado por ela [...]

Maravilha. Maravilha. E não podia ser mais bem adequado do que a um estudante de filosofia.

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