terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Capítulo II: As Sirenes


Anteriormente:

 ..."O chão de madeira absorve o peso dos ombros, relaxa e se joga no canto de sempre, na cabeça já a observa nua.

Em seu sono desajeitado no chão de madeira ,entre os sofás de couro, Roger mentalmente vislumbra a imagem magnífica da mulher da noite passada. Seu descanso é interrompido pelo toque do celular que o retira do seu prazeroso sonho. No visor do aparelho o número da policia. Sem saber o porquê da ligação, ainda eram 6h15 da manhã, ele atende e descobre o destino cruel de quem se entrega demais no desejo de fugir da realidade e de sua solidão. Seu grande amigo havia sofrido uma terrível overdose..."

[Continuação do livro: Teoria da Solidão.]

Capítulo II

As Sirenes

“...Felicidade não se encontra por aqui e na verdade eu não confio nos sinais nem nas metades, por isso eu decidi partir...”
                                                                                                          Terno Rei - Metrópole

Leonardo entrou em um mundo e nunca mais saiu. O pseudo-prazer que as drogas doavam para seu corpo e para a sua mente estavam destruindo-o completamente e como todo viciado ele não conseguia parar. Quando raramente conseguia era apenas por intervalos de alguns meses, mas logo voltava para o se vicio. Foram rios de dinheiro pelo ralo e clínicas e mais clínicas de reabilitação e internatos, mas nada disso parecia ter feito algum efeito.

Homens são como cobras, se cortarem a cabeça nada mais funciona. Há tempos o psicológico de Leonardo não era o mesmo. Ele tinha grana, tinha talento, tinha mulheres, tinha tudo o que qualquer jovem desejaria querer. Ele só não tinha cabeça, então seguia a dos outros.

Pelo telefone Roger foi instruído a ir até o apartamento de Leonardo a fim de pegar algumas roupas e objetos de higiene pessoal. Ao entrar no imóvel Roger teve uma noção maior do mal que a solidão causou na vida do seu amigo. Tudo revirado, roupas se misturavam com o sangue que ficou pelo chão do lugar. O cheiro de comida estragada e a impregnação de odores de cigarros e bebidas deixavam o ambiente ainda mais carregado. Como alguém poderia chegar a tão baixo fundo de poço? Leonardo até parecia um mendigo de luxo!

Leonardo já havia sido uma pessoa muito talentosa. Estudante de economia, ainda na faculdade ele desenvolveu um projeto que aumentou a produtividade da área agrônoma da cidade de São Desidério, no oeste baiano. Ele aprendeu novas formas de pensar a economia da região observando e visitando cidades chinesas e israelenses, referências mundiais de economia agrícola. Nesta fase da vida Leo já era visionado no mundo empresarial e provavelmente seria uma das mentes econômicas mais brilhantes do país. Filho de pais ricos, nada haveria de dar errado na vida dele. Férias regadas a viagens ao exterior, se bobear ele já havia conhecido o mundo inteiro, festas, carros caros, muitas mulheres e outras regalias que as pessoas comuns apenas vivenciam pelos monitores dos televisores e computadores de suas humildes casas. Apesar de ser um promissor economista sua paixão era fazer música. Tinha uma banda de New MBP, haviam feito um grande contrato com a Sony Music e tudo parecia que dar certo, menos o seu pai que não achava nada inteligente alguém que havia se tornado referência na economia do país começar a viver um sonho bobo de ser musico.

 Claro que o contrato com a gravadora havia sido proporcionado pela facilidade dele fazer contatos, dava muitas festas e grandes músicos vinham para o seu apartamento. Fez grandes contatos, mas nunca grandes amizades. Foi em um desses contatos, que Leo jurava serem boas amizades, que ele acabou conhecendo a cocaína. Claro que tudo começou com os típicos “aperitivos”: Cervejas, destilados e depois cigarros. Aí veio a maconha, mas até então ele ainda estava “normal”. Foi quando ele conheceu a cocaína que sua vida mudou. Começaram as mentiras, os furtos, as faltas na faculdade. Os familiares tentaram ajudar como puderam, sofreram muito. Não tem como não sofrer. Depois de um bom tempo, anos na verdade, eles não aguentaram mais o vício de Leonardo e a solidão abriu um buraco no peito e na cabeça de Leonardo. Ele caiu como uma pedra.

Apesar de sempre ter tido dinheiro Leo nunca soube fazer amigos, ele sempre acabava os comprando. Sempre sofreu secretamente com isso, não que revelasse isso a alguém, mas isso ficava evidente para qualquer pessoa com um pouco mais de percepção e sensibilidade.

Parecia que a negatividade poderia ser tocada a qualquer instante no apartamento de Leonardo. As cortinas fechadas, os cheios e toda aquela bagunça impregnaram nas roupas e na cabeça de Roger. Derrepente ele se viu com um vazio, que o preencheu por completo. Sentiu medo de perder parte da sua própria vida caso Leonardo morresse. Sentiu que precisava ajudar seu velho amigo. Egocentricamente pensativo ele se perguntou o que seria do seu próprio passado caso Leonardo não pudesse mais sentir um novo sopro de vida, tem coisas que nossa mente jamais lembrará e outras que são meramente vistas com os nossos próprios olhos. As pessoas dão o peso certo para que elas ganhem a real coerência. Roger sentiu medo de perder-se com uma possível morte de seu amigo.

Ao sair do prédio Roger ouviu ao longe o barulho de sirenes, sentiu os pêlos dos seus braços arrepiarem e como o efeito de uma grande dose de tequila ele começou a ver tudo turvo. Seus braços fraquejaram, deixando sua bicicleta cair de encontro ao chão. Ele sentiu a fragilidade da vida e percebeu a urgência de poder ver os olhos do seu velho companheiro de confusões e brincadeiras de infância. Ele precisava salvar Leonardo.

Como é estranha a sensação de perda. Algo abriu um sexto sentido em Roger e ele pedalou como nunca, ele nem se importava com as diversas poças de água que ficaram por todas as ruas dos bairros da cidade de Santos. Com sua roupa molhada e muito suja ele chegou ao hospital. As batidas do seu coração lembravam bumbos de bateria das bandas de metal. Eram graves, frenéticas e carregaram um peso esmagador, fazendo com que Roger arqueasse para conseguir voltar a respirar ao subir as escadarias do lugar. Ao chegar à recepção foi informado que não poderia entrar e que em breve alguém viria conversar com ele sobre seu amigo. Seu mal-estar piorou miseravelmente ao ver os pais de Leonardo adentrar o hospital e algo dizia que ele não veria o veria novamente.

Ao levantar-se para cumprimentar os pais de Leonardo viu o que menos esperava. A mulher de cabelos preto e casaco de lã da noite passada vinha ao seu encontro, era uma das enfermeiras do local.

A vida é realmente bem irônica.



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